CHINA - Preparando o século XXI

(Continuação)

 

E o futuro?

A distância entre o que era a China há algumas décadas e o que é hoje é imensa. Nos últimos decênios, a partir da revolução de 1º de outubro de 1949, conduzida pelo Partido Comunista, sob a liderança de Mao Tsé-Tung, o país transformou-se. Desde 1978, através das reformas internas e da abertura externa, inspiradas pelo líder Deng-Xiaoping, foi desencadeado um imenso projeto de desenvolvimento acelerado, que está mudando radicalmente o país. Baseia-se no que se chamam as quatro modernizações: agricultura, indústria, ciência e tecnologia e defesa nacional.

A versão que difundem os meios de comunicação do exterior é que a China abandonou o caminho traçado pela revolução socialista de 1949. Se formos avaliar esse problema, tomando como referência certo número de pessoas - milhares, em milhões de chineses -, que preferem um estilo ocidental, ou o brilho das vitrines, os carros nas ruas ou os shoppings, poderia parecer que algo, nesse sentido, de fato existisse.

Mas, quando o exame da realidade é mais profundo, é fácil compreender que o gigantesco processo de modernização do país se baseia em princípios socialistas e que a própria abertura admite uma economia de mercado, porém socialista, com peculiaridades chinesas.

Há indicadores muito claros sobre essa política. As terras são totalmente de propriedade do Estado ou de entidades comunitárias. Não há propriedade privada. O essencial da economia está em poder do Governo ou é propriedade coletiva (junto com a estatal, as duas formas de propriedade que eles designam de propriedade pública). Calcula-se que estas não superam 8% e se dividem entre investimentos estrangeiros - mais de 200 mil parcerias - e um imenso setor de pequenas e médias empresas, que dinamizam a economia sem afetar o poder do Estado socialista.

Na avaliação de alguns observadores internacionais, no fim do século, 70 milhões de chineses farão parte do setor privado da economia, como pequenos empresários, empregados ou investidores estrangeiros, cujos lucros estão regulamentados e cujo enriquecimento é balizado pelas licenças de funcionamento das empresas e os impostos à renda.

"Na China" - nos diz Li Beihai, subchefe do Departamento de Relações Internacionais do Partido - "a principal forma de propriedade é a pública. Os setores que têm importância estratégica para o país e o povo ficam nas mãos do Estado".

Recordei-me em Xangai uma entrevista que realizei em Moçambique com o saudoso presidente Samora Machel. Antes do encontro, perguntou ele o que mais as pessoas reclamavam nas ruas do seu governo. "Que o senhor está abandonando a linha socialista. Maputo está cheia de munhés (pequenos comerciantes hindus, algo assim como os nossos camelôs)." Sua resposta não tardou: "E desde quando vender tomate nas ruas é dogma da economia estatal, do marxismo?".

É possível que os líderes do PC chinês pensem assim e prefiram exercer o controle sobre os mecanismos do poder econômico real e não perturbem com dogmas os pequenos comerciantes, os vendedores de tomate ou os investidores estrangeiros que se proponham a fazer negócios de mútuo interesse sem tentar imiscuir-se nos assuntos internos do país.

Uma convivência complexa

De qualquer forma, a administração de uma sociedade socialista convivendo com expressões explícitas do capitalismo exige poder, clareza e fidelidade aos princípios. Conciliar essa nova realidade com a tensão revolucionária e os dogmas socialistas não é tarefa fácil, embora as regras sejam claras e de recíproca conveniência. A China parece estar realizando com êxito esse casamento pragmático entre maoístas e parceiros estrangeiros com seus estilos e métodos ocidentais sem perder a sua identidade, nem se distanciar dos seus objetivos.

Em primeiro lugar, não haverá país onde as práticas socialistas se adaptem melhor à cultura nacional, baseada na ética, modéstia, solidariedade e numa fraterna vida comunitária. O governo tem um imenso sistema de Previdência mas a comunidade tem o seu próprio, baseado no espontâneo auxílio recíproco, sobretudo aos velhos. As entidades assistenciais são quase sempre apoiadas pelo conjunto dos habitantes de cada aldeia, e cujos nomes já indicam sua natureza, como, por exemplo, as Casas de Respeito aos Velhos. "Você acha que o povo quer mudar o que está dando tão certo?", me perguntou um velho camponês de uma aldeia próxima a Wuxi.

O fantasma da corrupção

Os líderes chineses com quem conversamos não têm dúvidas de que o capitalismo não é apenas a boa técnica de acumulação financeira, o supermercado, o computador e a eficácia, sem dúvidas desejáveis. "É como abrir uma janela para arejar o ambiente. Entra o ar fresco, mas com ele as moscas e outros insetos. Temos que estar atentos a esses riscos", nos ponderou um dirigente de Nanquim.

Perguntamos quais são os "bichinhos" mais perigosos que estão entrando agora, com a abertura econômica chinesa. "A corrupção, as drogas e a prostituição, entre outros", nos diz.

Esse é um tema na ordem do dia no país. A China está sendo sacudida por uma enorme campanha contra a corrupção. Todos os órgãos do Partido Comunista, com seus 55 milhões de militantes, estão empenhados nessa batalha, seja no esforço cotidiano como através de congressos, seminários e programas de rádio e televisão. Aliás, os canais de televisão e as rádios são todos estatais e estão proibidos de transmitir cenas de violência e pornografia, outros "insetos" muito conhecidos no Ocidente, que poderiam infiltrar-se na abertura econômica.

Severas medidas repressivas estão sendo aplicadas aos infratores. O poderoso secretário do Partido Comunista em Beijing, Chen-Xi-Tung, que tinha poder político sobre a Prefeitura da capital chinesa e era a mais alta autoridade local, foi destituído de suas funções e está submetido a processo. Chen foi acusado de levar "uma vida extravagante, aceitar presentes de alto valor e cometer muitos erros". Sabe-se em Beijing que ele foi envolvido pelo lobby de empresas estrangeiras que procuravam obter privilégios para os seus investimentos.

O empresário sino-australiano James Reng Jiandong foi acusado de, com processos de corrupção, tentar o controle da Cia. Industrial de Xenzen, a primeira joint-venture realizada na China. Foi condenado a 18 anos de prisão, apesar do empenho do governo australiano em libertá-lo e dos protestos de empresários de Hong Kong, segundo os quais essa condenação seria uma ameaça aos que colocam seu dinheiro na China.

Em Genebra, delegados da China e do Brasil anunciaram um projeto para criar nas Nações Unidas uma agência especializada no combate à corrupção. Vão ter, sem dúvida, muito trabalho. Mas os chineses têm pressa e seguramente não vão esperar somente pelas medidas da ONU. O vice-diretor do Burô de Segurança Pública de Beijing, Zhang Joinchen, já anunciou que será criado um órgão especial para o acompanhamento do trâmite dos investimentos de modo que seja assegurada a sua transparência.

O Partido está dando grande prioridade a esse problema. Fortalece sua pregação ideológica, adota medidas repressivas, mas insere a quota de marxismo numa profunda invocação às virtudes e às tradições nacionais. Aliás, essa é uma constante na vida da China.

As três batalhas

Um chinês, veterano de muitas lutas, a quem perguntamos sobre esse confronto entre o socialismo e a práxis capitalista e suas seqüelas, nos faz essa reflexão: "O senhor esteve no malecón (avenida litorânea) de Xangai e viu aqueles suntuosos edifícios construídos pelos colonialistas? Estão todos hoje em nosso poder e não há um soldado ou uma baioneta estrangeira no nosso solo. Vencemos a batalha contra o colonialismo." E acrescenta, refletindo sobre as diferentes etapas da revolução chinesa: "A segunda batalha foi a da libertação econômica. Olhe para a nossa realidade atual e veja como a vamos vencendo. Neste momento, já estamos envolvidos na terceira batalha, que é o confronto com certos estilos de pessoas que aqui aportam e que nos trazem sua contribuição para o desenvolvimento, mas também suas maneiras de proceder, que são estranhas à nossa cultura. Não se equivoque. Vamos superar esses problemas sem comprometer a cooperação dos que atuam corretamente. Nossas idéias socialistas são mais fortes e melhores, nossos propósitos honestos e o que estamos fazendo está dando certo."

Um caminho diferente da ex-URSS

Os chineses são muito discretos quando comentam o que ocorreu na União Soviética. Mas quando apontam os erros do período de Mikhail Gorbachov sempre acrescentam uma observação: "Antes dele, já Kruschov havia começado práticas parecidas."

O que se conclui é que o exemplo soviético está muito presente nas suas análises. Há, no entanto, situações que chamam a atenção dos estrangeiros, como por exemplo o nível de vida de uma pequena camada de empresários que já apresentam o que se chama por aqui "sinais exteriores de riqueza".

A interpretação de alguns dirigentes é de que esse número é ínfimo e as novas condições de que desfrutam, resultado de acumulações financeiras quase sempre realizadas fora do país, não lhe dão qualquer tipo de privilégio ou poder de influir.

Como o Estado tem força para impor uma distribuição justa do lucro, contemplando a eqüidade social, sua atividade corretamente orientada pode ajudar a aumentar o número dos chineses que progridem, realizando o sonho do regime de "socialismo sem pobreza".

No Ocidente, governos, técnicos e empresários consideram como de alta prioridade a análise do desafio chinês. Teme-se que, pelas características de sua produção, não seja fácil concorrer com os seus preços e que, desse modo, seria inevitável uma preponderante presença dos produtos made in China nos mercados do mundo.

Não faltam, assim, os que já pensam como conter esse "perigo chinês", conforme a advertência de Li Beihai. O caminho mais fácil seria o que foi adotado para desagregar a União Soviética: disseminar os estilos de vida capitalista, estimular irredentismos e divisões internas. "Continuando como está, em pouco tempo a China rica e industrializada do vale do Yang-Tsé nada terá a ver com os camponeses pobres da Mongólia interior. E os problemas virão", sentenciou um governante europeu.

"Desconhecem a China. A unidade de hoje foi conseguida graças a séculos de lutas patrióticas. Conhecemos bem esse problema e lhe estamos dando a maior prioridade. E, mais rápido do que se espera no Ocidente, reduziremos muito as nossas diferenças regionais", comentou o membro do Burô Político e do Secretariado do Comitê Central do PC, Wen Tiabao.

Outra Guerra Fria?

Mas há, também, o sonho dos que já arquitetam uma nova espécie de Guerra Fria. E não se pense que é apenas o desvario de algum sectário ideológico da direita, inconformado com o tipo de progresso que os chineses estão alcançando.

Os desentendimentos sino-norte-americanos têm sido freqüentes e vão desde os testes nucleares chineses até as reclamações contra a ausência de uma legislação - uma espécie de lei de patentes ao modo brasileiro - que proteja as marcas estrangeiras.

Também na Europa já se reclama contra o preço dos produtos chineses. Os belgas não gostaram de bicicletas a pouco mais de 40 reais e, em vez de baratear sua produção, preferem acusar os chineses de dumping. Outros países incluíram certos produtos nas suas listas de proteção aduaneira, com o olho no similar chinês.

Recente artigo de Anne Applebaum, publicado no Sunday Independent, de Johanesburgo, aludia a essas dificuldades no relacionamento comercial do mundo capitalista com a China. Previa que a fase de bom entendimento pode estar se esgotando, para dar lugar a uma nova Guerra Fria, cuja etapa inicial seria econômica. Diz sua autora o seguinte:

"Lentamente, começou a transformação da China em inimigo número um (do Ocidente). Em Washington foram levantadas objeções à visita (ainda sem data marcada) de Bill Clinton à China, com o argumento de que ele, de certa forma, legitimaria o regime chinês, só pelo fato de viajar até Beijing (...).

"Até agora, o único fator que evitou a explosão de uma nova Guerra Fria é o fato da China, ao contrário da União Soviética, não constituir um desafio militar à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Os chineses não têm projeto de exportação mundial da sua revolução e o seu expansionismo se limita aos territórios que eles consideram historicamente seus, como Hong Kong e Taiwan.

"Mas, na medida em que a economia chinesa se fortaleça, haverá outras conseqüências para o mundo exterior. Aquilo que os chineses consideram ser assuntos internos, inevitavelmente se transformarão em temas de interesses de outros.

"Hoje, a China é um problema para os negociadores da área comercial; amanhã poderá ser um problema para a Otan. Os conflitos militares geralmente começam como enfrentamentos ideológicos ou econômicos. O Ocidente, e os Estados Unidos em particular, têm ambos com a China", conclui.

O desafio pacífico

No entanto, não parece que os problemas em pauta possam evoluir para uma crise. Ao contrário, sente-se que a tendência é a solução das divergências através de negociações. Se Washington fosse partir para uma outra Guerra Fria só porque apareceu na China algum produto ocidental cuja marca está sendo copiada, os Estados Unidos já teriam desembarcado suas tropas há muito tempo na Tailândia, Coréia do Sul, Taiwan, Hong Kong, Singapura e outras regiões asiáticas ou até mesmo aqui perto, em Ciudad del Este, no Paraguai. Durante anos, o Japão tem sido alvo dessas acusações e nem por isso Washington rompeu com o seu governo.

Em Bangcoc, a capital tailandesa, vende-se de tudo e igualzinho ao produto original, sem qualquer lei de patentes. Os relógios Rolex e Cartier, muito semelhantes aos modelos legítimos, custam nove dólares. Impecáveis tênis ou camisas norte-americanas e européias de marcas famosas - mas falsificados -, são ali expostos por quatro e cinco dólares e não vi qualquer repressão a esse comércio ilícito.

Clinton conhece bem as realidades do mundo e seguramente não se deixaria levar por alguns setores excitados do seu país com interesses comerciais contrariados. O número de empresas norte-americanas na China é alto e a convivência com as regras chinesas não tem apresentado maiores anormalidades. Os seus mais importantes parceiros comerciais no exterior são o Japão, os Estados Unidos e a Europa.

Não parece que a exigência de leis de patentes, controvérsias sobre direitos civis, interpretados segundo a visão norte-americana, e outras reclamações dessa ordem sejam determinantes, no quadro atual, de uma deterioração do relacionamento Ocidente-China. Os fabricantes norte-americanos sabem que esses temas não poderiam levar a Europa e o Japão a uma ruptura e, como os demais, estão de olho no bilhão de consumidores chineses.

O presidente Bill Clinton disse recentemente que sua visita à China ainda deve esperar algum tempo, mas não só deseja o êxito daquela nação, como nada fará para levantar barreiras à sua aspiração de ser um país de liderança. Os chineses esperam que suas palavras se reflitam na sua política.

É difícil, portanto, prever uma nova Guerra Fria, apesar dos problemas. A China tem hoje um excepcional relacionamento no mundo. Cerca de 40 chefes de Estado e de Governo a visitaram nos últimos tempos. As delegações nos dois sentidos são incontáveis. Quando visitávamos a Cidade Proibida e o mausoléu de Mao (às 10 da manhã já havia sido visto por seis mil pessoas e as filas eram quilométricas), cruzamos com o presidente da Áustria, Thomas Klestil, à frente de uma grande comitiva. Nas Muralhas encontramos uma delegação de alto nível do Vietnã e outra do Camboja. Numerosas outras eram esperadas nas semanas seguintes.

Um dos últimos visitantes, recebidos pelo presidente Jiang Zemin, foi Bill Gates, o supermilionário presidente da indústria norte-americana de software, a Microsoft, seguramente interessado no mercado chinês.

No coditiano partidário a efervescência é a mesma. A ministra para o Departamento de Relações Internacionais do Partido, Li Shu Zheng, nos disse que o PC desenvolve intenso relacionamento com a Ásia, que é uma das suas prioridades. Mas não fica aí. Atualmente o PC chinês já se relaciona com mais de 300 partidos influentes no mundo e é crescente o número de líderes políticos do exterior que visitam a China e conhecem as suas realidades.

Pelo menos no horizonte próximo o clima não é de hostilidade, mas de cooperação. A China e o mundo contemplam um desafio histórico: conviver juntos e buscar na concorrência econômica e no cotejo ideológico, e não em um confronto que conflua para crises militares, seus caminhos de afirmação, desenvolvimento e liderança
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( Reproduzido da Revista Cadernos do Terceiro Mundo n° 192, dezembro de 1995)

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